Bons e Velhos Tempos: Bituca e o Clube da Esquina
20 de maio de 2012 // By: Escritor D. // 56 Comments

Da janela lateral do quarto de dormir eu, que já não era moleque de calças curtas, costumava espiar aquele bando de jovens tocando violão naquela esquina.
Aqueles rapazes eram parte do retrato da cena musical e cultural de Minas nos anos 60’s que teve seu reconhecimento nacional com o lançamento do LP “Clube da Esquina” em 1972.

Bituca e parte da turma em algum boteco de BH
A verdade é que o Clube da Esquina não foi um lugar ou um movimento cultural, como muitos costumam entender. Não havia clube algum a que se restringisse a entrada.
Eram amigos jogando conversa fora e compondo. Rapazes de classe média baixa que, sem grana para ir aos clubes da moda, se juntavam nas ruas do Santa Tereza e na casa dos Borges para fazer música.

Tudo teve início quando Bituca saiu de Três Pontas/MG e foi morar na Capital. Em Belo Horizonte conheceu a família Borges e se aproximou, especialmente de Marcio, amigo com quem dividia as noitadas e que se tornou um de seus grandes letristas. A amizade era compartilhada com os demais irmãos Borges e amigos que, mais tarde, viriam a compor as várias canções que muitos de vocês cantarolam até hoje.
Foi numa sessão do filme Jules et Jim que os amigos Bituca e Marcio Borges despertaram a vontade de fazer algo maior, dar um sentido à suas vidas.
Foram para casa de Marcio e compuseram as primeiras canções. E assim foi formado o clube da esquina, a junção de amigos que tinham como elemento centralizador a figura do rapaz Bituca, fazendo – por vezes – o papel de irmão mais velho, voz, maestro e amigo.

Alguns anos se passaram e o rapaz Bituca – agora Milton Nascimento – foi morar no Rio de Janeiro, ficando conhecido nacionalmente através da canção “Travessia”, letra do amigo Fernando Brant, que ganhou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1967.
Milton costumava retornar a Belo Horizonte para se encontrar com os amigos, compor e tomar umas no bar. Numa dessas vindas encontrou o rapaz Lô Borges, irmão mais novo dos onze filhos da Dona Maricota, que sempre havia ficado um pouco de fora dos encontros da turma devido a pouca idade.
A partir desse encontro Milton percebeu que Lô tinha crescido e que possuía um talento e gosto musical que haviam passado despercebidos.
É de Lô, Marcio Borges e Fernando Brant a canção Para Lennon e MacCartney gravada por Milton no LP de mesmo nome.
Repare no sotaque pouco amineirado do Beto Guedes
Milton retornou mais uma vez a BH e convocou o amigo Lô Borges para gravar um disco no Rio de Janeiro. O jovem Lô pediu dispensa do exército e a autorização dos pais, partindo para o Rio. Havia, no entanto, uma condição: A de que o amigo Beto Guedes o acompanhasse. Foi assim que a mineirada toda partiu rumo à praia para gravar o emblemático LP duplo chamado Clube da Esquina.

Cacau e Tonho: os meninos da capa do LP depois de 40 anos
Os músicos se revezavam nas gravações das faixas, cada qual tocando um instrumento diferente. O clima era de descontração e amizade, para aqueles jovens, a amizade sempre antecedia à música. O que importava era transmitir a mensagem, expor suas letras e melodias do modo mais sincero possível.
“Tínhamos um espírito gregário, que nos impulsionava a ficarmos juntos. Gostávamos de estar juntos porque gostávamos tanto da influência que uns exerciam sobre os outros quanto de exercê-las”. Marcio Borges
Inicialmente o disco não foi muito bem recebido pela crítica nacional, que parecia não ter compreendido a junção de sons e a audácia em se produzir um LP duplo.
No entanto, tão logo percebeu a boa aceitação do público, a crítica passou a tecer comentários favoráveis ao disco.
Em 1978 a turma, sempre acrescida de mais e mais gente, gravou o Clube da Esquina 2, também repleto de grandes canções.
Parte da cultura musical nacional, a citada e conhecida esquina entre as ruas Paraizópolis e Divinópolis em nada se diferencia de tantas outras esquinas de Belo Horizonte, salvo por uma plaqueta que indica ter sido ali o local do clube da esquina.

Ali passaram os jovens despretensiosos e aquele Bituca com voz da alma, mostrando a musica brasileira (e mineira) para o mundo e também para os brasileiros.
“Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem…”



















