Divã do Sicko: quero me prostituir

17 de setembro de 2010 // By: // 410 Comments

Oi Sicko… Vou usar o nome “Scarletty” para me apresentar por aqui… Mas antes de contar o meu problema em questão, aqui vai um breve resumo da minha vidinha, assim talvez seja mais fácil entender o fim da história.
Eu tenho 24 anos, moro com meus pais em São Paulo, estou desempregada e dou uns rolezinhos furados de fim de semana pra distrair. Eu quase me formei em Química, mas tranquei o curso por N motivos. Passei por inúmeros empregos e nunca nenhum deu certo.

Atualmente estou solteira há um bom tempo. Todos os meus namorados eram sentimentalmente mal-resolvidos e descontavam em mim a frustração deles por não terem brincado de boneca quando eram criança.

Eu nunca traí nenhum namorado, não sou uma mulher vulgar, não me porto como uma e sou na maior parte do tempo um pouco tímida e reservada.

Mas claro, sou humana e tenho minhas necessidades, então sempre tem um affair ou outro pra passar o tempo… Mas aí eu paro pra pensar, e vejo que eu trepo com imbecis que nem sabem falar meu nome direito e às vezes ainda tenho que rachar a conta do motel. Quando começo a namorar, tenho que inventar que o “escolhido” da vez é sempre o quarto ou o quinto homem que já me comeu, quando na verdade já foram uns vinte e poucos… Afinal, homem pergunta nosso passado, mas se falamos a verdade já viu né?

Minha mãe fala que “Passado de mulher é que nem cozinha de restaurante barato: Se você for conhecer, perde o apetite não come mais lá!”.

O motivo pelo qual escrevi pra você é porque estou numa crise doida cheia de dúvidas sobre uma decisão que estou prestes a tomar:
Quero virar garota de programa.


Comentei isso com uma amiga, e ela me veio com um monte de pedras na mão, falando que sou inteligente e que posso fazer algo melhor, assim como ela. Mas ela trabalha com TELEMARKETING e ganha uma miséria, mesmo sendo formada, não conseguiu trabalho descente… Eu não acho que preciso estar desesperada ou ser BURRA para me tornar garota de programa, afinal, nem toda puta é “surfistinha” e sonha em ir no programa da Luciana Gimenez dar um depoimento.

Eu posso ser garota de programa e ler Bukowsky (aliás, uma coisa tem tudo a ver com a outra), ouvir Radiohead e sentar numa mesa de bar com uns amigos pra discutir socialismo e política utópica.

Claro que não vou virar puta de rua e nem de puteiro, a minha intenção é trabalhar com esses sites de “acompanhantes” de luxo, afinal papai-do-céu não me deu sorte na vida, mas me deu ótimos dotes físicos, fui “miss” no meu colégio duas vezes e estou bem satisfeita com meu corpo.

A questão moral é que me pega, de fato. Mas será que tem muita diferença entre vender minha buceta por dinheiro ou me casar com um bosta e sustentar um casamento de fachada mesmo não sendo feliz? De qualquer forma, é uma agressão ao corpo, seja ela física ou psicológica, né?

Boa parte do dinheiro que uma prostituta ganha é para investir nela mesma: Beleza, roupas, tratamentos estéticos, e etc…

Ela mesma faz os próprios horários de trabalho, não tem chefe cobrando, não tem metas absurdas para atingir além, é claro, da “satisfação do cliente em primeiro lugar”, mas isso está em qualquer área de trabalho.

Ela não fica triste se o cara não ligar no dia seguinte e não tem que levar pra casa “um porco inteiro só por causa de uma linguiça”… Satisfaz suas necessidades fisiológicas, e ainda é PAGA pra isso.

O que tira o meu sono é pensar nos valores morais mesmo, vivemos numa sociedade hipócrita pseudo-moralista aonde 90% dos homens recorrem às prostitutas mas elas ainda são vistas como lixo.

Eu não sei o que fazer! Me pego todos os dias pensando nisso mas não consigo criar coragem… Esse não é o futuro que sonhei pra mim quando estava no colégio, mas agora me parece uma boa opção. Morro de medo dos meus pais descobrirem, meus amigos e parentes… Se não fossem essas outras pessoas, seria de boa, porque minha consciência não iria pesar, afinal meus conceitos sobre o que é certo ou errado não foram erguidos com uma base moralista hipócrita.

Eu admito que todas as minhas desilusões amorosas e profissionais foram a maior influência nessa decisão, mas não é só isso. Não que eu sinta tesão em pensar em ter uma vida de puta, afinal, eu sei MUITO BEM que não deve ser fácil. Mas essa ideia e todos os prós disso me atraíram de uma forma absurda, e estou há um passo de botar isso em prática.
Ai Sicko, eu tô fazendo merda? Sei que você não é um moralista antíquado, então a sua opinião realmente irá pesar pra mim.

Beijos,
“Scarletty”

Amada aprendiz de Jacutinga,

Ê vida boa, seus melhores amigos lhe pagam por hora

Embora a resposta para a sua pergunta seja CLARA como bukkake de albino, não posso fornecê-la por um simples motivo: ao fim das contas trata-se de uma escolha pessoal.

É seu corpo que vai ser vendido, o meu não está a venda (desisti de vender quando soube que nem todos os bancos das Ilhas Cayman seriam capazes de ESTOCAR toda a fortuna que ele renderia).

Pau do Sicko: 560 pontos em Wall Street

Você afirma não ter problemas morais em se prostituir, como se a única coisa que lhe impedisse de anunciar a VAGINA no Mercado Livre fosse a sociedade hipócrita.

Se você realmente se considera acima do moralismo que condena a objetificação do próprio corpo, eu digo que vá em frente. Se prostitua, cobre caro e me envie um belo presente pelo empurrão.

Mas, o fato de você recorrer a mim, um moralista, como você mesma apontou, me diz que há algo na consciência que também lhe diz que essa não é a melhor saída.

A prostituição não é triste e degradante pelo fato em si. Não é pelos motivos machistas ou moralistas que a sociedade católica sempre aponta horrorizada. O que torna a opção tão estigmatizada é a coisificação em que ela implica.

Uma vez prostituta você pode ter um belo corpo, dinheiro para gastar consigo e segurança financeira, mas vai ser para sempre destituída de valores importantes: orgulho próprio e a oportunidade de desfrutar da intimidade de outra pessoa.

Talvez você considere que possa conciliar as duas coisas mas, a não ser que você mude para a terra encantada em que todos são livres de preconceitos, dificilmente você encontrará um marido que a respeite e poderá constituir família com a tranquilidade de quem pode chegar em casa e responder aos filhos aquela pergunta comum “Como foi no trabalho?”

Seja bem vinda à Sempreconceitolândia (o carro pertencia a um senhor que se mudou quando conheceu os emos)

É hora de raciocinar adiante. Vislumbrar o futuro que você espera pra você. O conselho da sua mãe, além de baixo, esquece-se de que a verdade sempre vem à tona.

Ao invés de te ensinar a esconder o passado, e com isso se sentir livre para fazer qualquer coisa sem consultar a consciência, ela deveria ter lhe ensinado que tudo o que fazemos torna-se parte da gente.

No fim das contas a escolha é simples: ou você se prostitui e vive uma vida solitária (já que não terá com quem compartilhar suas conquistas) ou aprende a lidar com o mundo como ele é: difícil e com infinitos obstáculos.

Você pergunta qual a diferença entre se vender e casar com um “bosta” por comodidade como se essas fossem as duas únicas opções. Se esquece de que há várias outras, como correr atrás e dar-se a oportunidade de conhecer alguém legal.

Meu conselho é que você esqueça os ditados da sua mãe e se espelhe no exemplo de sua amiga que, apesar de formada (coisa que você não é), se dedica a um emprego com o qual não sonhava (coisa que você aparentemente considera indigno de si) mas que não abriu mão dos valores que ela e o mundo real acham importantes.

Por fim, lembre-se: alguns passados realmente são como cozinha de restaurante vagabundo: sujo, com comida vencida e ratos. Mas nem todo restaurante é imundo, há os limpos e de ótima qualidade e, quando dada a opção de escolha, é lá que todo mundo prefere comer.

Update: Resposta dela

Bom, eu mandei o e-mail para o Divã do Sicko no dia 04 de Agosto… Como ele só respondeu agora, em 17 de Setembro, muita coisa mudou em mais de 1 mês.
Logo após a primeira semana, eu fui atrás de um site de acompanhantes bem famoso… Fiz as fotos com um fotógrafo indicado do site e em menos de dua semanas já estava tudo pronto.
Ainda bem que eu tinha um dinheiro guardado, porque até para virar GP você precisa investir -E MUITO!
No mesmo dia em que fiquei online no site, tive 4 ligações e “fechei” um programa para o mesmo dia. O consultor do site antes de me cadastrar tinha me explicado milhares de coisas, como seria, que tipo de comportamento eu teria que ter e etc… Fui super nervosa. Peguei meu carro e fui para o endereço do flat dele. Para minha surpresa, era um cara de uns 40 anos mas bonito, super educado, inteligentissimo e NÃO ROLOU SEXO. Ele queria apenas conversar e foi bem legal, ele desabafou os problemas dele, demos bastante risada, ela me pagou e eu fui embora. O segundo programa já foi “sério”. Também num flat, com um cara de uns 35. Rolou sexo, e por incrível que pareça não foi NADA fora do normal… Não me senti constrangida e não me senti mal, finalmente quebrei o tabu que existia na minha cabeça e depois disso todos os programas foram, de certo modo, bons. Em três semanas nisso, já passei por situações bem inusitadas (se continuar assim, vai até render um “Profissão LOL”!rsrsrs)… De 23 programas que fiz, 6 não rolaram sexo. Alguns queriam apenas conversar, outro me levou em uma balada para eu me passar por namorada dele na frente dos amigos e da EX NAMORADA. E teve um americano que simplesmente me pagou para ficar com ele no hotel onde ele estava apenas conversando, jantando, tomando vinho e jogando VIDEOGAME.
Em três semanas consegui ganhar aproximadamente nove mil reais. E agora eu sei e entendo perfeitamente o por que tantas e tantas meninas escolhem esse caminho.

Não quero de forma alguma incentivar outras meninas a fazer isso, até porque, eu não tenho orgulho do que estou fazendo.

Mas não é também esse inferno que grande parte dos leitores pensam ser.

A parte da “solidão” é muito foda mesmo… Mas eu não vou fazer isso para o resto da vida.
Fiquei um pouco assustada com o que “estaria por vir”, porque uma coisa é ler relatos na internet, outra é conhecer de fato alguém que esta nessa também… Decidi então tentar conhecer mais garotas de programa… Na primeira semana eu comecei a olhar todas as outras meninas do site, e liguei para umas três… As duas primeiras nem quiseram conversar comigo, mas a terceira foi um amor de pessoa e conversou comigo… Eu contei pra ela que gostaria de conversar pois estava cheia de duvidas e medos e etc. Enfim, conversamos bastante por telefone e saímos pra tomar um café. Foi ótimo, somos amigas agora e para ela eu sinto que é a mesma coisa que é comigo: Faltava alguém para conversar sobre a vida que ela leva.

Eu inventei uma desculpa para os meus pais, disse que estou fazendo em freelance com eventos, baladas e etc… E como eu já trabalhei com isso antes, eles sabem que os horários são bem aleatoreos e “engoliram” essa mentira.

Respondendo as perguntas mais frequentes no post anterior:

Não pessoal, não peguei nenhum cara “fedorento, nojento e asqueroso”, até porque quem se dispõe a pagar o preço que eu cobro, são homens com niveis socias e financeiros bem elevados.

Sim, eu já TENTEI ser modelo… Mas a menos que você tenha 1,80m e uns 39kg, não vira dinheiro não. Eu sou magra, tenho o corpo definido, mas bem “brasileiro”, 1,65m, cintura fina e bunda grande.

Sim, eu já mandei fotos minhas para o LOL, com outro nome. E tenho certeza que os idiotas que falaram merda de mim aqui são os mesmos pirralhos imbecis que fizeram centenas de comentários nas minhas fotos e me “homenagearam” no banheiro a semana inteira.

E enfim, eu não tenho o “cuzinho arrombado todo dia por qualquer velho gordo que aparecer” como um dos leitores disse aqui. Dos 23 programas que já fiz nessas três semanas, nenhum cliente me tratou mal – pelo contrário. O Cliente me liga, e eu tenho autonomia para dispensá-lo, caso o perfil dele não me agrade. E só para tirar a dúvida: Eu não sou obrigada a fazer o que eu não quero, tudo o que “pode ou não pode” é combinado antes do programa. E todos me respeitaram demais, até porque nenhum executivo rico quer ver sua imagem denegrida por uma GP fazendo escândalo no flat ou hotel em que esta hospedado, né?

Não, eu não quero “arrumar um idiota rico e dar o golpe do baú”, como várias pessoas aqui sugeriram. Acho muito pior vender minha DIGNIDADE, do que o meu corpo… E acreditem: Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

E sim… Tenho total noção de que não serei bonita pra sempre e nem quero tornar isso a minha “carreira permanente”! Faço 25 anos semana que vem.
Minha meta? Começar o curso de Engenharia Quimica em 2011.

Agora eu queria agradecer o Sicko pela atenção e pela sensibilidade que ele teve comigo. Significou MUITO tudo o que você escreveu e me fez pensar muito, aliás, vai me fazer refletir muito ainda. Obrigada também a todas as pessoas que deixaram comentários legais, eu li todos. Me emocionei bastante com tudo isso e começo a acreditar de novo que existem pessoas legais no mundo, que se importam com os outros.

Beijos a todos!

“Scarletty”