Clube da Leitura – 1984 – Semana 1

Amiguinhos!

Depois do sucesso do nosso primeiro clube da leitura, iniciamos esse mês com o clássico 1984! Segundo nosso cronograma, a primeira semana, encerrada esse domingo, foi para ler a primeira parte do livro.

Segue meu comentário, aguardo os seus!

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Orwell, que foi um grande adepto do socialismo, escreveu 1984 sob um contexto de extrema decepção com os caminhos que a Revolução Soviética havia tomado. Ao contrário de muitos intelectuais de sua época, ele, que inclusive LUTOU ao lado dos republicanos de esquerda na Guerra Civil Espanhola, rapidamente reconheceu os crimes de Stalin (coisa que Hobsbawn jamais faria) . APESAR disso, ele continuou adepto do socialismo não-soviético e grande defensor da luta contra a desigualdade. Para muita gente isso pode parecer contraditório, mas é perfeitamente compreensível uma vez superada a visão maniqueísta das coisas. Não é sequer complexo, tampouco contraditório, caso o leitor tenha um elementar conhecimento do assunto. Comunismo não é socialismo, socialismo não é marxismo e nenhum desses é stalinismo.

Alá, não era esquerda caviar não!

Essas nuances em seu entendimento político-social fica bem clara em 1984. A primeira parte do livro relata a vida de um burocrata público em uma sociedade dominada por um governo totalitário e autoritário. Embora não fale diretamente, o governo retratado é claramente uma versão fictícia do stalinismo. O Partido está acima de tudo, seus membros referem-se uns aos outros como “camarada” e a filosofia política é construída em torno do culto de personalidade ao Grande Irmão (ou Big Brother).

 


O que, a princípio, pode ser interpretado como um ataque à esquerda, logo fica mais complexo. Lá pelo fim da primeira parte, Wilson, o protagonista, refere-se ao proletariado como a única esperança para o futuro e para o rompimento das amarras criadas pelo governo. Parece-me, portanto, que a grande crítica de Orwell é contra governos autoritários e totalitários, quaisquer que sejam sua inclinação política. O que faz sentido, se considerarmos o contexto em que foi escrito.
A obra, publicada em 1949, foi escrita no ano anterior, um ano depois de 1947, tida pela maioria da historiografia como data inicial da Guerra Fria. Governos autoritários de extrema-direita haviam sido derrotados (na Alemanha e Itália, por exemplo), alguns tantos outros persistiam (como em Portugal) e, em ao menos 1/3 do mundo, pululavam governos de esquerda, grande parte deles também autoritários. Embora em retrospecto seja fácil imaginar que adotar uma postura crítica equilibrada fosse natural para alguém com alguma capacidade de pensar, creio que essa visão ponderada fosse difícil de alcançar no contexto histórico. Eis um dos primeiros valores que pude identificar no livro: a exposição de um cenário extremado a fim de propor uma solução moderada.

1947 – O anúncio da Doutrina Truman e o início da Guerra Fria

Esse “cenário extremado” é apresentado de maneira primorosa e que, embora às vezes possa parecer exagerada ou caricatural, retrata a realidades de milhões de pessoas vivendo sob governos totalitários. A impressão que eu tenho é que Wilson acabou de despertar em um mundo de sonâmbulos. O diário que ele mantém é uma espécie de consciência externa, um modo de pensar sem se arriscar a ser pego, em uma sociedade em que até o pensamento é criminalizado.

Uma das partes que mais me chamou atenção foi a conversa de Wilson com o amigo especialista em newspeak (novilingua para quem está lendo em português). O amigo descreve maravilhado a “evolução” da língua, que caminha em retrocesso, com a redução do vocabulário às palavras essenciais e à adição de novos termos. Thouthcrime, o crime de pensamento, cometido pelo ato de crimethinking e percebível até mesmo pela expressão do criminoso, facecrime. Além do pensamento e das ações, o próprio desejo é criminalizado. O amor é irrelevante, o sexo, coisa da classe baixa. A classe dirigente se casa com a única função de cumprir o dever de procriar. O amor é desestimulado e a supressão dos instintos e desejos afetivos é tamanha que Winston se vê transando com uma prostituta banguela e velha.

 

Solidão é uma merda

O mais assustador e mais fácil de observar, contudo, é a ATUALIDADE da obra. Especialmente para o contexto atual de polarização de ideias e retrocesso conservador. Condenação sumária por crime de pensamento? Julgamento dos desejos alheios? Polícia de pensamento? Reinvenção do passado sem nenhuma base factual (nazismo é de esquerda, durh!). Soa familiar, não é?

 

 

Mesmo sendo uma análise política e social incrível, o livro poderia ser um saco não fosse tão bem escrito. Faz tempo que havia lido pela última vez, me lembrava de poucos detalhes, mas a leitura fluiu de maneira prazerosa, como um filme de suspense e ficção-científica.

Curtindo demais! E vocês, o que acharam até agora?

 

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O cronograma

  • Semana 1 – 01 de outubro a 08 de outubro
    • Livro 1
  • Semana 2 – 09 de outubro a 16 de outubro
    • Livro 2
  • Semana 2 – 17 de outubro a 24 de outubro
    • Livro 3

 

Até semana que vem!

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