Divã do Sicko: todos que eu amo morrem

É dificil começar a explicar assim, repentinamente, mas num breve resumo da minha infância, fui criado como um grande perdedor, que nunca arrumava mulher, se matava de estudar pra apanhar dos outros garotos do colégio, e achava que o mundo era lindo quando eu conhecesse o “amor da minha vida”. Típica história de cabaço adolescente de cidade pequena.
De qualquer forma, um dia eu conheci uma garota, nos apaixonamose com 3 meses que nos conhecíamos, eu a pedi em namoro, com alianças feitas de ouro branco, que eu havia comprado vendendo todos os meus livros, instrumentos, brinquedos, anyway para poder presenteá-la. Devo lembrar, que na época eu estava no auge dos meus 15 anos. Tudo foi às mil maravilhas durante 5 meses que estivemos juntos.

Ela havia sido minha primeira transa, meu primeiro amor correspondido, e a primeira pessoa com quem eu conseguia conversar abertamente. Para mim, garoto de cidade pequena, conhecer e namorar uma garota da cidade grande era algo extraordinário, e eu sempre tolerava as vezes em que ela fumava maconha com seus amigos. Nunca achei nada demais, até nosso aniversário de 6 meses, quando ela me ofereceu cocaína. Eu recusei, e ela, sob efeito do entorpecente, me xinga, me bate, e atira a aliança, que tinha um significado tão bonito, em minhas costas. Eu me afastei dela, depois da tradicional “Ou as drogas, ou eu”. Ela escolheu as drogas, e por 3 dias eu passei em casa, anestesiado, inerte em pensamentos perdidos, e é no terceiro dia que a procuro, resoluto de que eu enfrentaria mesmo as drogas para estar com ela.

Mas ela não estava mais lá, pois na noite anterior haviatomado uma dose cavalar de cocaína injetada e falecera de overdose. Quando questionada por telefone, sua irmã afirmara que havia sido culpa de uma briga que ela teve com o namorado.

Eu tinha só quinze anos, e ela, dezesseis. Foi quando procurei um psiquiatra na tentativa de amenizar minha dor, pois tal fato, em um garoto que os hormônios estão fervilhando, afetou seriamente meus neurônios, e mesmo que afirme a medicina que certos problemas são hereditários, eu já venho de uma família de depressivos crônicos e suicidas, além de bipolaridade ser um fator comum a praticamente todos da família. O que aconteceu com esta minha ex então, foi um estopim para que eu viesse a pirar, já, tão cedo.

Principalmente por quê eu sempre senti, e ainda sinto, que a culpa da morte dela foi minha. Mesmo que falem que ela fez as decisões dela, fui eu quem deu as costas quando ela precisou.

Com algumas consultas, ele já me receitara remédios muito fortes para que eu me acalmasse, tal como o Valium, pois minhas intenções suicidas eram enormes, e não só as intenções, mas eu havia sido diagnosticado com problemas como desvio de comportamento, intenções suicidas, bipolaridade, depressão profunda.. Mas eu tinha muito orgulho da minha capacidade cerebral, afinal sempre fui um garoto inteligente, e não quis arriscar com remédios.

Nesta mesma época, eu comecei a andar com um grupo de motoqueiros que o primo de um amigo meu frequentava, que ele estava com medo que eu me matasse por conta da depressão, e mesmo sem moto e sem idade para beber, eu entrei na fase mais “dark” de minha vida. Bebia todos os dias, brigava com qualquer um, fazia sexo com qualquer uma que aparecesse. Cheguei a extremos de com 17 anos, pegar duas senhoras de 50 e tantos, só pela vontade de sentir algo. Mas a resposta, para mim, sempre fora a busca da morte. Eu queria que minhas bebedeiras acabassem em um acidente fatal, minhas brigas em sequelas, minha promiscuidade em uma doença séria. Mas nada disso veio (a não ser uma gonorréia fodida que me deu o maior trabalho pra curar). Nesta época, tudo que eu queria era me destruir.

Foi então num dia aleatório que conheci uma garota que me tirou do buraco, com jeitinho, manha e tudo mais, eu estava simplesmente deixando o passado para trás e tentando viver o futuro. Ela suportava minhas recaídas em depressão, minha bipolaridade, meu jeito mais agressivo. Resumindo, ela me adorava, mas eu simplesmente não conseguia me sentir feliz, e nada que eu podia fazer resolvia. Eu a via fazendo N coisas românticas para mim, tal bilhetes espalhados, tal ligações perdidas em terças feiras ociosas. Coisa de gente apaixonada mesmo. Ela com jeito conseguira tirar meu pé do passado, mas a cabeça permanecia lá. Fui a primeira transa dela, o primeiro cara que deu trela e que a aceitou. Eu já estava com 21 anos.

E tanto amor da parte dela me fez eu acreditar que eu era tão canalha, mas tão canalha, que ela mereceria alguém melhor, que ao menos tivesse algum sentimento bom. Pois eu, não possuia nenhum, além de carinho e amizade. Foi quando eu terminei. Não era justo com ela. E ela não acreditava quando eu dizia que não gostava dela mais. Cheguei a extremos de dizer que nunca havia gostado.
Mas nossa amizade permaneceu. Eu sabia que ela ainda gostava de mim, e eu, sinceramente, queria ficar com ela depois que eu conseguisse sentir algo pelo sexo feminino além de tesão. Logo depois voltei a sair com meus amigos, vieram mais bebedeiras, mais mulheres. Mas eu já não queria mais me destruir. O garotinho medroso da cidade pequena, agora se tornara um rapaz confiante, forte, ousado por todos os elogios e carinhos desta namorada.

Foi então, que cerca de um mês depois que nós terminamos, digo, que eu terminei, ela foi diagnosticada com um tumor no cérebro, e teve que operar. Fui vê-la no hospital uma única vez, e nesta única vez, eu chorei tudo que eu não havia chorado nestes 5 anos. Eu reprimia todos os sentimentos que podia, mas dessa vez foi impossivel segurar. Ela melhorou, voltou para casa, ainda mal conseguia abrir os olhos, e eu só estava esperando a oportunidade certa para voltar. E foi a menos de um mês que ela teve uma recaída e voltou para a sala de cirurgia. Agora o tumor era maligno. Feita a operação, ela voltou ao estado de coma induzido. E hoje, as duas horas da manhã, recebo a notícia de que ela também falecera. Agora são 3:40 da manhã, e eu estou desesperado.

Agora, neste exato momento, o que eu sinto é uma fúria incontrolável que já me fez esmurrar a parede da minha sala e deixar minhas mãos sangrando, chorar feito um bezerrinho, e acreditar que ela se foi também por minha culpa. É dificil não acreditar que tenha algo de errado comigo, e qualquer uma que se aproxime vai acabar assim, e eu estou com muito medo de ter um surto depressivo e me pendurar pelo pescoço. Aliás, muito mais simples agora que moro sozinho, pois antes eu morava com minha família. Agora, esse tremor, esse sentimento, eu sei que antecipa algo ruim para mim, e se eu fizer uma CAGADA, vou danificar meus amigos, minha família, todo mundo.

Sicko, que eu faço? Procuro ajuda psiquiátrica novamente e tomo os remédios para me deixar anestesiado, ou tento enfrentar minha doença sozinho? Há alguma forma de eu conseguir seguir em frente?

Me ajuda. É sério.

Grato desde já.

Salve, perturbado amiguinho

Sua história faria Álvares de Azevedo cortas os pulsos, Goethe roubar o lápis de olho da mãe e Lord Byron comer um pote de sorvete de flocos enquanto ouve My Chemical Romance no repeat.

É assim que ele ficaria conhecido

É trágica, mas não pelas razões que você imagina.

Mas primeiro, temos de lidar com um pequeno preconceito.

Psiquiatra NÃO cuida só de louco.

Achamos normal procurar um oftalmo quando temos algum problema de visão ou o ortopedista quando sofremos alguma pequena torção. Há até os moderninhos que não mais se acanham em dizer que vão ao urologista levar uma amigável DEDADA ou que acabaram de deixar a mulher no ginecologista para ter a VAGINA examinada. Mas todo mundo repentinamente se torna MEDIEVAL quando se trata de cuidar do seu órgão mais importante: o cérebro.

Como toda estrutura de nosso corpo, o cérebro às vezes precisa de ajuda. E isso acontece com mais frequência que a maioria imagina. Se considerarmos as estatísticas norte-americanas, 26% dos adultos sofrem ou já sofreram de alguma desordem psiquiátrica. Uma em cada quatro pessoas! É um dos cinco problemas de saúde mais frequentes (ao lado de problemas cardíacos, traumas, câncer e asma).

O taxi de levando ao consultório do psiquiatra. NOT!

Superado ESSE preconceito ainda há o medo do tratamento. Acredite: a não ser que chegue ao consultório nu, esfregando fezes na cara e cantando Calypso o seu psiquiatra não vai te dopar.

As drogas utilizadas nos tratamentos, em geral, visam a diminuir a ansiedade e restaurar o equilíbrio bioquímico causador do seu problema.

Não vão te transformar em um zumbi sem pensamento próprio e inerte. Isso acontece quando você não se trata.

Típico usuário de Fluoxetina. NOT! ²

Há uma tendência em todos nós de supervalorizarmos nossa importância no mundo. Já vi casos ilustrativos como o de uma mulher que se sentia culpada por lavar as mãos, acreditando ser responsável pela falta de água no mundo, ou de um sujeito se culpava a cada novo acidente que lia nos jornais porque tinha certeza que era Deus punindo-o por se masturbar (ele deve estar se masturbando muito, ultimamente).

Causa x Efeito

É o mesmo raciocínio ilógico por trás da sua crença de que foi sua recusa em cheirar que fez com que sua namorada cheirasse demais e é o que vai passar pela cabeça de todos os seus familiares caso você se mate. Cada um vai ter CERTEZA de que foi a causa e vai passar o resto da vida se lamentando.

Sua namorada era uma adicta e fez o que todo adicto está fadado a fazer um dia: dar azar.

Não fosse a discussão com você seria uma nota ruim na escola, uma briga com os pais ou um cadarço que arrebentou. Viciados não precisam de motivos para usar drogas.

Cheirar é como brincar de roleta russa com isso

Sobre o segundo caso. A menos que você tenha sido trancado em uma câmara de testes nucleares e agora seja azul e com tendências nudistas é seguro afirmarmos que você não tem nenhuma ligação com o tumor.

Nas duas situações o problema é seu cérebro tentando te dizer que você é mais importante do que realmente é.

Meu pênis mata. Vou me isolar num planeta cheio de motoqueiros, bebida e lésbicas de 50 anos.

Você já perdeu grande parte da sua vida se lamuriando e se culpando por um crime que não cometeu. Temia ficar dopado pelos medicamentos mas se dopou com bebida e autodestruição.

E agora que, com a morte da garota, você se deu conta do que deixou de viver por conta disso , você quer se torturar novamente por algo que não tem nada a ver com você.

Chega a ser desrespeitoso com a memória da finada tentar transformar a morte DELA em um problema pessoal SEU.

Seja homem, se recomponha e preste-lhe homenagens como ela merece.

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