Eu quero saber: o que diabos está acontecendo na Síria?

Sicko, parabéns pelo artigo sobre a Palestina … mas o que eu queria saber mesmo é o que tá rolando na Síria! A gente vê falando sobre isso no jornal mas eu fico muito perdido. FALA PRA GENTE!

André Damasceno 

 

A verdade é que, quem disser que pode te explicar com precisão todos os fatores, motivações e forças por trás do conflito na Síria está MENTINDO. E, sim, incluo aí especialistas. É uma bagunça tão grande que, mesmo que você entenda todo o factual, é impossível extrair daí uma única interpretação.

O certo é que, o que se passa hoje na Síria, é a culminação de um processo complexo que começou, pelo menos, no fim da Primeira Guerra Mundial, quando o país foi formado a partir do fragmentado Império Turco-Otomano. Mas a Síria não nasceu como um país livre. Até 1946 foi um protetorado sob supervisão dos franceses e quando esses abandonaram de vez o país, deixaram, como é de se esperar, uma zona do caralho.

 

PRONTO, TOMA SUA INDEPENDÊNCIA! - Tratado em que a França concede independência à Síria, assinado em 1936, mas que nunca foi ratificado por motivos de HITLER

PRONTO, TOMA SUA INDEPENDÊNCIA! – Tratado em que a França concede independência à Síria, assinado em 1936, mas que nunca foi ratificado por motivos de HITLER

 

Acontece que, sob a administração francesa, os alawitas (uma seita muçulmana xiita), chegaram ao poder. Se você levar em conta que lá os alawitas são 8% da população, enquanto os sunitas (que, vocês lembram da escolinha, discordam dos xiitas) são 74% e os cristãos 10%, você entenderá o problema que deu. Não é surpresa, portanto, que após a saída dos franceses a Síria tenha virado um tumulto do cão.

As coisas só se estabilizaram quando na década de 1970 os militares (entre os quais há muitos alawitas) deram um golpe e botaram no poder o general Hafez al-Assad (o nome é familiar?), também alawita. A estabilidade de que falei ali é, no entanto, aquela que os militares sabem fazer: brutal, ilusória e temporária. Com opressão, tortura e violência, conseguiram apaziguar a oposição, mas as causas profundas do conflito foram alimentadas. Ao favorecer os alawitas, colocando-os em altos cargos da administração pública e fortalecendo o exército, o ditador só botou lenha na fogueira e aprofundou as divisões étnicas e religiosas.

 

Êêê, viva eu, vou fazer muita cagada!

Êêê, viva eu, vou fazer muita cagada!

 

Imagine que numa sala de 100 pessoas os OITO ODIADOS tomem o poder e tentem manter o resto sob controle na base da porrada. Sabe no que vai dar, né?

Se não ficou claro, olhe só a divisão religiosa na Síria dos anos 1970.

 

Sinta a TENSÃO

Sinta a TENSÃO

 

Viu o verdinho claro? É a área predominantemente alawita. Vê aquela bolinha branca,no meio da enorme mancha laranha sunita? É a capital.

 

Se acrescentarmos o componente étnico, então, o potencial de dar merda explode.

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Como você pode ver, a maioria do país é composta por árabes, mas todo o território é salpicado por minorias. A mais importante, a se notar, são os curdos, representados por esse verde/marrom caganeira, ao norte do mapa. Lembre-se deles.

Um passo na direção do CAOS foi dado em 2000, quando Hafez foi abraçar o capeta e seu filho, Bashar al-Assad, assumiu o poder.

A Primavera Árabe

Como vocês sabem (não sabem?), em 2010 uma série de protestos contra o governo começou na Tunísia e se espalhou por vários países do mundo árabe. As causas eram diversas (econômicas, políticas e religiosas), mas, invariavelmente, fizeram emergir conflitos sectários latentes.

 

Tradução: cuidado com esse seu cu, Assad

Tradução: cuidado com esse seu cu, Assad

Na Síria, a onda revolucionária chegou em janeiro de 2011, com uma série de demonstrações pacíficas contra a opressão do governo. Assad, obviamente, reagiu com repressão, prendendo mais de 3 mil pessoas nos dois meses seguintes. Em abril mais de 200 mil sírios se reuniram em Damasco pedindo a renúncia do ditador. Os protestos continuaram até que, em julho, o governo enviasse o exército para atacar diversas cidades, redutos de opositores do regime, matando e prendendo diversas pessoas.

A partir de então, a bomba relógio que fora armada há décadas explodiu, e todo o mundo foi sugado no conflito.

Quem é quem?

O complicado do conflito sírio é que ele envolve dezenas de atores, regionais e extra-regionais, com intenções muitas vezes conflituosas. Para entender, ajuda um pouco FATIAR a análise.

O governo x rebeldes

 

Soldado sírio após a expulsão de rebeldes que invadiram a escola militar em Aleppo

Soldado sírio após a expulsão de rebeldes que invadiram a escola militar em Aleppo

O conflito mais simples de entender é aquele entre o governo e os rebeldes. Os rebeldes lutam pela queda do governo e este, obviamente, pela permanência do regime. Essa luta é repleta de vais e vens, ora com as forças rebeldes ganhando força, ora com retomada de cidades importantes pelas forças oficiais. Embora ambos os lados estejam cometendo atrocidades, o governo sírio é amplamente responsável por violações das leis de guerra e de direitos humanos, bombardeando civis, usando armas proibidas e gás.

O governo, no entanto, não opera sozinho. Um dos grupos que apoiam Assad é o Hezbollah, a milícia xiita libanesa considerada por muitos países como um grupo terroristas. O grupo, com financiamento do Irã (também xiita), tem interesse em sustentar o regime de Assad já que, com sua queda, surgirá, provavelmente, um regime sunita opositor.

Note-se, também, que o termo “rebeldes” envolve vários grupos que lutam contra o regime mas que, de forma alguma, são coesos.  A BBC, por exemplo, estima que haja, pelo menos, mil grupos rebeldes diferentes, cada qual com seus objetivos, métodos e motivações.

Entre os maiores podemos destacar o Exército Livre da Síria (ELS), formado por desertores do exército oficial em 2011. Apesar disso, o grupo rapidamente saiu do controle, com vários outros grupos espalhados pelo país se dizendo parte do ELS que, na prática, deixou de existir. Se hoje você ouvir falar de ELS é só um termo genérico que a mídia e os próprios rebeldes usam para se referir à oposição armada secular (que não é motivada por religião).

Embora o ELS não exista mais, os grupos independentes que se associaram a ele ainda existem e operam separadamente. Não vou entrar em detalhes sobre cada, até porque a lista da Wikipedia nem cabe na tela, mas basta dizer que eles não se coordenam de forma organizada nem seguem um objetivo ou estratégia únicos.

 

 

PORRA! Tem uns malucos chamados FANTASMAS DO DESERTO! Nem sei quem são, mas já torço pra eles!

PORRA! Tem uns malucos chamados FANTASMAS DO DESERTO! Nem sei quem são, mas já torço pra eles!

 

Com o fim do ELS, o Ahrar al-Sham tornou-se o maior grupo armado envolvido no conflito, contando com estimados 20 mil combatentes. Para ter-se uma ideia de como a coisa é complicada lá, o grupo é salafista (uma vertente ultra-conservadora dos sunitas), é aliado a um grupo afiliado à Al Qaeda, mas é apoiado pelos Estados Unidos e seu objetivo é derrubar o governo e criar um Estado islâmico.

Captou o drama? Agora multiplica por mil.

 

Os conflitos sectários

A guerra civil, por sua vez, fez reacender os conflitos étnicos e sectários latentes. A razão é fácil de entender: em um país tão dividido, em que o governo está ameaçando cair, os distintos grupos lutam pela sobrevivência, temendo que a ascensão de uma facção inimiga vá gerar uma nova onda de repressão contra seu povo.

Guerrilheira kurda das Unidades de Proteção Popular (YPG)

Guerrilheira curda das Unidades de Proteção Popular (YPG)

Nesse contexto, os que mais se destacam são os curdos. Os curdos são uma etnia que não se confundem com os árabes ou turcos. São considerados, por muitos, o maior povo sem Estado no mundo, e sua população (estimada entre 25 e 35 milhões de pessoas) está distribuída entre Síria, Turquia, Iraque, Armênia e Irã.

 

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Área habitada pelos curdos

 

Assim como os ciganos, os judeus antigamente ou qualquer outra nação sem Estado, os curdos sofrem opressão como minoria onde vivem. É conhecido o caso do massacre de curdos com gás sob ordens de Saddam, no Iraque. Portanto, não é de admirar que seu maior objetivo seja um Curdistão, um país independente para o povo curdo. E é com esse objetivo, assim como ocorreu no Iraque, que os curdos da Síria pegaram em armas e, aproveitando do enfraquecimento do regime, passaram a lutar pela sua independência.

 

Atores estatais

 

Além das forças que operam internamente no conflito, estão, obviamente, os Estados.

 

Soldados da Guarda Revolucionária iraniana

O Irã é o principal aliado estatal da Síria.  Embora o não seja um país árabe (iranianos são persas!), o Irã é o país xiita mais poderoso do mundo e trabalha duro para manter um de seus únicos aliados na região em que é cercado por inimigos. Um regime sunita em Damasco seria um desastre para Teerã, que seria enfraquecida diante de seu maior adversário árabe, a Arábia Saudita, país sunita. Por isso, além de manter seu já histórico apoio ao Hezbollah, o Irã passou a apoiar a síria com armamentos, dinheiro e soldados da Guarda Revolucionária. Atualmente Teerã também tem enviado mercenários paquistaneses e afegãos para lutar pelo regime sírio.

 

 

Russos na Síria

 

Já a Rússia é o aliado mais poderoso de Assad. Como grande potência militar e membro do Conselho de Segurança da ONU, o país tem intervido diretamente na Síria sob o pretexto de que defende o regime legal. Putin diz que o papel russo no país é expulsar a ameaça do Estado Islâmico (EI), mas, na verdade, seu exército tem ajudado  bombardear cidades ocupadas pela oposição. Esses bombardeios têm sido feitos em áreas habitadas por civis e muitos grupos de observadores apontam o uso de bombas proibidas pelo Direito Internacional.  Além disso, Moscou cumpre um papel essencial ao vetar toda tentativa de pressionar o regime sírio no Conselho de Segurança. O principal interesse russo, na verdade, é garantir a continuidade de um regime que lhe permite manter sua base militar em Tartus, o único ponto de acesso naval ao Mediterrâneo do qual a Rússia dispõe.

 

Forças especiais dos EUA lutando com os curdos ao norte da Síria

Os Estados Unidos não querem se envolver diretamente no conflito (o que é compreensível se vermos a merda que deu no Afeganistão e no Iraque). Obama chegou ameaçar Assad com ação militar caso armas químicas fossem utilizadas na guerra, mas quando ficou claro que isso aconteceu, o ex presidente ARREGOU.  No campo político, o objetivo dos EUA mudou de apoio expresso aos rebeldes  para a defesa de uma negociação que permita manter a estabilidade no país. Militarmente, Washington tem enviado alguns aviões para atacarem as posições do EI e de alguns grupos jihadistas. Além disso, os norte-americanos têm equipado e treinado grupos rebeldes que combatem o EI, especialmente os curdos. Mais de 500 soldados de operações especiais foram enviados para se unir aos curdos. Fala-se também do envolvimento da CIA no treinamento secreto de rebeldes que lutam contra Assad.

 

Exército turco

Turquia talvez seja o Estado com a posição mais complicada. Desde o começo apoiaram os rebeldes, crendo que Assad logo cairia, fazendo isso, esperavam deter a instabilidade gerada pelo conflito e evitar que os curdos se fortalecessem ao norte Sírio. Como falei acima, os curdos querem formar um Estado próprio e estão espalhados pela Síria, Iraque E Turquia, de modo que, o fortalecimento de um território curdo na Síria aumentaria as forças rebeldes curdas dentro da Turquia. Apesar disso, a Turquia chegou a apoiar os curdos na Síria, visto que eles são o principal bastião de luta contra o EI, que promove atentados frequentes em território turco. Ankara determinou uma zona de contenção militar na fronteira com a Síria além de ter permitido que os EUA fizessem vôos militares a partir de seu território.

 

Obama e o rei da Arábia Saudita, o maior aliado árabe dos EUA

A principal preocupação da Arábia Saudita e dos outros países do Golfo  é de que o Irã use o conflito Sírio como oportunidade para se expandir na região. Seu objetivo é a queda de Assad com a acensão de um regime sunita. Além disso, lutam contra o EI, responsável por diversos atentados no Golfo. Seu envolvimento no conflito é indireto, e se faz por meio de financiamento aos grupos rebeldes e jihadistas.

 

O Estado Islâmico

Terroristas do Estado Islâmico

 

Sabem aquele moleque infernal, babaca e descontrolado que não tinha nenhum amigo na escola? É o Estado Islâmico. O grupo jihadista salafista ultra-conservador quer reestabelecer um califado (basicamente um império) na região, apagando as fronteiras dos Estados atuais. Seus métodos, como todos infelizmente já vimos, incluem escrotidões máximas como obrigar crianças a executarem inimigos, queimar gente viva, etc.

Com esse histórico maravilhoso, não é de surpreender que eles não tenha aliados. TODOS os atores citados até agora TAMBÉM lutam contra o EI. É sério, nem a AL QAEDA gosta deles.

Embora desde 2014 o grupo tenha entrado em declínio e perdido território, 6 milhões de pessoas ainda vivem sob seu comando e estima-se que conte com 20 mil soldados.

 

TLDR: resume pra mim

Parece complicado? É porque é mesmo. Eis aqui uma tabelinha ajudando a esquematizar

 

Clique para ampliar

Trata-se de um conflito que envolve múltiplas partes, com interesses diversos.  Muitas vezes A e B são aliados, mas A é inimigo de C, que é aliado de B. E por aí vai. Tudo se complica mais com o envolvimento de outros Estados, que travam uma guerra por procuração em território Sírio (usam o conflito sírio para se fuderem indiretamente) e do Estado Islâmico.

 

A situação atual

 

Refugiados sírios

Em dezembro a situação, que hora favorecia um lado, hora o outro, passou a favorecer o regime sírio. Com apoio russo, as tropas oficiais de Assad finalmente capturaram Aleppo e agora controlam as cinco maiores cidades do país. Isso, no entanto, não deve ser visto como um sinal de força absoluta do Exército sírio. É notável que antes do conflito o Exército tinha 220 mil homens e hoje conta apenas com 25 mil.

Contudo, o conflito está longe de terminar. Estima-se que a guerra que já dura 6 anos matou mais de 400 mil pessoas e deslocou mais de 12 milhões (metade da população do país). A grande crise de refugiados na Europa e no entorno Sírio é efeito direto disso.

Desde 2011  a Liga Árabe, a Rússia,  a ONU, o governo sírio, rebeldes e algumas potências ocidentais têm se envolvido em tentativas de negociar a paz, sem sucesso.

As iniciativas continuam em curso.

 

Para acompanhar em tempo real como anda as disputas territoriais por lá, dê uma olhada nesse site!

 

 

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