Eu quero saber … o que foi o Dia D?

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Na madrugada do dia 6 de Junho de 1944 os exércitos alemães estacionados na Normandia, noroeste da França, foram despertados pelo estrondo de 2200 bombardeiros despejando bombas sobre eles. Logo depois o rugido de mais de mil C-47 se aproximava. Dentro de cada C-47, 20 paraquedistas (americanos, britânicos e franceses), preparados para saltar atrás das linhas inimigas. Recuperados da surpresa, os alemães reagiram abrindo fogo pesado com sua artilharia antiaérea, matando muitos soldados antes mesmo que deixassem os aviões.

Naquela madrugada, enquanto 13.100 soldados despencavam do céu, tocou o telefone no quartel-general do Marechal de Campo von Rundstedt, o idoso, porém brilhante, comandante dos exércitos alemães no oeste. Reportavam saltos de paraquedistas aliados por toda a Normandia. Diziam que provavelmente se tratavam de bonecos, uma artimanha para desviar a atenção alemã de Calais, região da França onde a maioria dos líderes alemães esperavam a invasão. Ou talvez fosse um ataque isolado.

Rundstedt não se iludiu. Sabia que os saltos eram o início de uma grande operação anfíbia para invadir a Europa ocupada.

 

von Rundstedt após ser capturado pelos americanos nos arredores de Munique

von Rundstedt após ser capturado pelos americanos nos arredores de Munique

 

A Defesa

Primeiro, deixemos claro uma coisa. Dia D é um nome genérico usado para designar o dia de uma operação quando o tal dia ainda não foi definido ou quando é secreto. O nome da operação de invasão da Normandia foi Overlord. Para os propósitos desse artigo, usarei os dois como sinônimos, no entanto, porque é assim que o evento se popularizou.

Não era novidade que haveria uma invasão Aliada na França. Todos sabiam. As discordâncias eram só sobre ONDE seria, QUANDO seria e COMO contê-la.

 

Rommel inspecionando a Muralha Atlântico

Rommel inspecionando a Muralha Atlântico

Ainda em 1942, Hitler ordenou que fossem construídas fortificações ao longo de toda costa ocidental da Europa, da Espanha à Noruega. Essa fortificação foi chamada de A Muralha Atlântica.
Toneladas de concreto foram utilizadas para erguer abrigos, barreiras antitanques, trincheiras e casamatas. Incontáveis rolos de arames farpados foram colocados nas praias. Hitler acreditava que a única chance de conter a invasão era detendo-a nas praias, empurrando os Aliados de volta para o mar e evitando que estabelecessem cabeças de praia.

Von Rundstedt discordava. Para ele a invasão só poderia ser detida caso o grosso das forças alemãs fossem mantido na reserva. Assim, contra-ataques rápidos poderiam ser direcionados para onde a invasão acontecesse. Hitler concordou, mas em 1944 enviou seu outro Marechal de Campo, Erwin Rommel, com a missão de fortalecer a muralha atlântica e preparar a defesa nas praias. Para Rommel e Hitler, a superioridade aérea dos aliados impossibilitava a execução do plano de von Rundstedt.

No dia da invasão, a Alemanha tinha 50 divisões espalhadas pela França e pelos Países Baixos. O VII Exército, sob o comando do General Curt Haase, defendia a Normandia.

Havia em torno de 380 mil soldados alemães na região no dia do desembarque. A maioria era de velhos ou recrutas mal treinados, já que a nata da Wehrmacht já havia sido massacrada no front oriental.

Desses, 50 mil se envolveriam nos conflitos do Dia D.

A preparação para a invasão anfíbia

A Overlord foi planejada por quase um ano. Manobras para enganar a inteligência alemã quanto ao local do ataque envolveram a construção de aeroportos artificiais com aviões de mentira e tanques infláveis em regiões da Inglaterra próximas a Calais. Exércitos inexistentes foram manobrados pelo rádio para confundirem os alemães. Um trabalho de logística inédito foi necessário para que tudo pudesse ser preparado.

 

Soldados falavam terem a impressão de poderem caminhar de um lado até o outro da Mancha sobre os barcos. Não acho que foi exagero

Soldados falavam terem a impressão de poderem caminhar de um lado até o outro da Mancha sobre os barcos. Não acho que foi exagero

 

Após ter sido adiada por um dia por conta de fatores meteorológicos, a operação foi finalmente lançada na madrugada do dia 6 de junho.

A costa da Normandia fora dividida em 5 praias, com codinomes: Omaha, Utah, Gold, Juno e Sword. Os americanos desembarcariam em Omaha e Utah e os britânicos em Gold, Sword e Juno (aqui também com tropas canadenses).

 

As praias e o local dos saltos

As praias e o local dos saltos

À 1 da manhã mais de 2 mil bombardeiros atacaram as posições alemãs na Normandia. Após a barragem, mais de mil aviões de transporte transportaram 13100 paraquedistas que saltaram atrás das linhas inimigas. Seu objetivo era capturar objetivos táticos, como pontes e cruzamentos, a fim de conter contra-ataques alemães contra as tropas nas praias e dar-lhes tempo para estabelecer cabeças de praia. Os resultados foram mistos. A confusão, a artilharia antiaérea alemã e o tempo fizeram com que muitos paraquedistas se perdessem. Depois de 24 horas, somente um terço dos paraquedistas estava reunido com suas unidades. Ainda assim objetivos importantes foram capturados.

 

Os desembarques

 

D-Day Aerial view

 

Enquanto isso, a maior invasão anfíbia já vista no mundo atravessava o Canal da Mancha. Foram usados, somente no dia da invasão, 6.939 embarcações, tripuladas por 195.700 marinheiros. Desembarcaram nas praias, no primeiro dia, 156.115 soldados. No dia 11 de Junho, os Aliados já haviam desembarcado 326 mil soldados, 50 mil veículos e 100 mil toneladas de equipamentos! Em seu sensacional livro, Stephen Ambrose compara a operação com o transporte de uma cidade média inteira da Inglaterra para a França.

As praias tiveram graus de dificuldade variados. Utah foi tomada com apenas 197 baixas. Sword, Juno e Gold foram mais difíceis, custando aos aliados 1000 baixas, cada.

É agora!

É agora!

Omaha foi a praia mais custosa (lembra de O Resgate do Soldado Ryan? É lá!). As ondas fortes carregaram muitos dos barcos de desembarque, espalhando-os pela costa e dissipando as forças de ataque. Para piorar, os bombardeiros aliados, com medo de atingir os próprios barcos, não atacaram a praia, privando as tropas das valiosas crateras que poderiam ser usadas como proteção. Ao fim do dia, apenas 600 soldados haviam alcançado o terreno mais elevado. O estabelecimento da cabeça de ponte na região da praia só foi possível 3 dias após o desembarque. Foram perdidos 2 mil soldados.

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Imagine escalar esse paredão enquanto mais de 200 soldados inimigos cospem chumbo derretido sobre você

Enquanto isso, um combate em pequena escala, mas duro, se desenrolava na interseção entre Omaha e Utah. Lá havia um grande promontório chamado Pointe du Hoc, que era basicamente uma pedra gigante sobre um paredão íngreme de frente pro mar, onde uma bateria alemã poderia bombardear as duas praias.

Duzentos Rangers foram até a base do paredão de barco, escalaram 30 metros de pedra, usando escadas de corda e ganchos, sob fogo pesado dos alemães que atiravam de cima, a fim de destruir os canhões que lá ficavam. Quando subiram, descobriram que os canhões haviam sido movidos. Finalmente os encontraram a 500 metros de onde deveriam estar e os destruíram. Mesmo com a missão cumprida, os Rangers ainda se encontravam cercados por inimigos. Pediram ajuda e esperaram TRÊS DIAS até que reforços chegassem. Durante esse tempo sua munição havia acabado e eles estavam usado armas dos alemães mortos. Só 90 rangers sobreviveram.

O que mudou com a Operação Overlord?

Os ganhos aliados pós Dia D

Os ganhos aliados pós Dia D

Ao contrário do que muitos afirmam, a Overlord NÃO mudou o rumo da guerra. A balança já pendia contra a Alemanha há tempos. Em junho de 1944, antes da operação, o Eixo já havia perdido a guerra na África. O sul da Itália já fora invadido por tropas aliadas, a sangrenta batalha de Monte Cassino fora vencida e Roma fora libertada dois dias antes da invasão na França. No front oriental os soviéticos avançavam. Derrotaram a Wehrmacht em Stalingrado, em Kursk (na maior batalha de blindados da história!), no Cáucaso e libertado Leningrado.

Só os alemães mais iludidos ainda acreditavam em uma vitória. Os mais otimistas esperavam um rendimento negociado.

Ainda assim, o Dia D adiantou os eventos. Sem a invasão aliada na França, ou ao menos sem a AMEAÇA dela, a guerra teria durado mais tempo e os alemães poderiam mover divisões para o leste para conter os russos.

Desde 1940 a França vivia sob ocupação alemã. Os britânicos só combatiam os alemães na África, nos mares e, mais recentemente, na Itália. O mesmo acontecia com os americanos. Coube aos russos, ao custo de milhares de vidas, conter a Wehrmacht na Europa e avançar sobre o III Reich.

O Dia D foi o início do engajamento absoluto dos outros Aliados, um alívio para os russos ao criar um terceiro front de guerra  e servir como catalisador dos eventos.

 

Bônus

TOMA esse vídeo

Quer saber mais sobre o Dia D?

 

Livros

Infelizmente o Brasil é carente de boas traduções no assunto. Eis o que há de bom!

 

O Mais Longo dos Dias

 

Um espetacular relato de Cornelius Ryan, um jornalista irlandês, que cobriu a guerra e entrevistou mais de mil combatentes. Sensacional. Leia agora! TO MANDANDO!

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O Dia D – 6 de Junho de 1944

Sensacional livraço detalhado, escrito por  Stephen E. Ambrose, mesmo autor de Band of Brothers, que detalha a operação Overlord.

 

Band of Brothers

O livro que inspirou a série e que conta a história da Easy Company, que pertencia a uma das divisões de paraquedistas que saltaram na normandia.

 

Dia D – a Batalha Pela Normandia

Outro livro sobre o conflito, escrito por Antony Beevor, um dos meus historiadores prediletos.

 

Séries e Filmes

Band of Brothers

Comecemos pelo melhor. Produzida pelo Spielberg e pelo Tom Hanks, são 10 horas contando a sensacional história da Easy Company, desde o treinamento, passando pelo salto na normandia até a tomada do Ninho da Águia de Hitler!

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O Resgate do Soldado Ryan

Se todo o filme fosse uma merda (e não é) valeria só pela cena da praia.

 

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O mais longo dos dias

Clássico, sensacional, formidável! Tenha! Baseado no livro do Cornelius Ryan.

 

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