Eu quero saber … o que diabos acontece entre a Palestina e Israel – Parte 1

Essa é uma pergunta que muitos me fazem no Twitter e no Facebook. Trata-se de um tema complexo e envolto de opiniões enviesadas, mas seu entendimento é essencial para compreender uma das regiões mais importantes do planeta.

Vale salientar que NÃO SOU PERITO NO TEMA. Não sou historiador nem especialista em política ou relações internacionais. Sou apenas um curioso e admirador de história. Dessa forma, é bem provável que vá haver erros factuais no texto (correções são bem vindas), portanto, leia com cautela e faça sua própria pesquisa depois.

 

Também procurei me manter  imparcial. O conflito israelo-palestino é acalorado e costuma gerar discussões que fogem do factual. Como não tenho galo nessa briga, não me interessa nem me convém puxar a sardinha para nenhum dos lados. Como tudo em história e em política, é impossível afirmar quem está certo. Ambos estão certos e errados ao mesmo tempo.

 

Tire suas próprias conclusões, mas não se esqueça da dimensão e complexidade da questão. Simplificar em questões assim é um erro.

O que é a Palestina, afinal?

A Palestina histórica é o nome que se dá à região entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo. É, basicamente, o que hoje conhecemos como Israel (com algumas diferenças que vou explicar). Ou seja, a faixa de terra entre o Líbano, a Síria, a Jordânia e o Egito.

Ao se observar sua posição no mapa, fica claro o porquê de ela ter sido sempre palco de invasões e conflitos. A Palestina é como um corredor no meio do Oriente Médio, ligando os Estados mais ao norte à África e ao Mediterrâneo.

Essa denominação não é nova. Foram encontrados textos de 1150 A.C. em que os egípcios reclamavam de uns tais Peleset que atravessavam o mar para tocar o terror nas terras deles. O termo mais próximo do que é usado hoje apareceu um pouco mais tarde, por volta de 500.A.C., quando Heródoto mencionava uma região chamada Palaistinê, pertencente à Síria. Os romanos, após conquistarem a área, transformaram-na em distrito oficial do império e deram o nome de Syria Palaestina.

 

A Palestina pela história

A Palestina pela história

 

Como se vê, o termo foi surgindo aos poucos e determina, com variações ao longo do tempo, aquela região em que hoje fica Israel. A definição MODERNA de Palestina, aquela que procura definir o Estado da Palestina, é um pouco mais confusa, pois envolve disputas territoriais, como veremos a seguir.

 

Um resumo sobre a história da região até o século XX

Os primeiros traços humanos encontramos na região datam de 1,5 milhão de anos atrás! São as primeiras evidências da imigração de homens da África para a Ásia. Mas isso é quando éramos, literalmente, homens da caverna. Os primeiros sinais de agricultura datam de 10 mil anos antes de Cristo, nos arredores de Jericó, uma das cidades de ocupação constante mais antigas do mundo (desde 9 mil A.C.).

Por sua localização, a região passou pelo controle de inúmeros povos. Egípcios, judeus, canaanitas, assírios, babilônicos, persas, gregos, romanos, cruzados e, finalmente, turcos otomanos; todos exerceram alguma espécie de poder sobre aquela terra até o século XX.
Muito da história antiga da Palestina é baseado em relatos bíblicos. Por ser um livro que fala sobre a aparição de UMA NUVEM DE FOGO DENTRO DA QUAL HAVIA QUATRO HOMENS, COM QUATRO ROSTOS (UM DE HOMEM, UM DE BOI, UM DE LEÃO E UM DE ÁGUIA) E QUATRO ASAS CADA (COLADAS UMAS NAS OUTRAS) E PÉS DE BEZERRA E QUE ANDAVAM SOLTANDO RAIOS E GIRANDO EM CIMA DE RODAS CHEIAS DE OLHOS, é claro que esses relatos são bem duvidosos. Alguns dos fatos são corroborados por achados arqueológicos, mas muita coisa permanece incerta e causa discussões acaloradas entre historiadores.

Para nós a coisa começa a ficar mais importante em 1486, quando os otomanos tomaram a região dos Mamelucos (uma casta de árabes guerreiros of Doom).

 

A evolução do Império Turco-Otomano

A evolução do Império Turco-Otomano

 

Desde então, a Palestina foi mantida sob o Império Turco Otomano (exceto por um breve período de 8 anos em que foi tomada pelos egípcios).
E é assim que chegamos ao século XX, quando as coisas realmente começam a encaminhar para a situação que conhecemos hoje.

 

 

O Império Turco Otomano no início do século XX

No início do século XX o Império Turco Otomano, antes um dos maiores impérios da história, estava em colapso. Em seu auge, se estendia de Budapeste até o Mar Cáspio, passando pelos países em volta do Golfo Pérsico, Somália e toda a costa mediterrânea da África até a Argélia. Agora, era composto pelo território da atual Turquia, Síria, Líbano, Israel, Palestina, Iraque e Jordânia.

 

O Império Turco-Otomano em seu ápice e pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial

O Império Turco-Otomano em seu ápice e pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial

 

Seu colapso começou por causas internas. Era um império multiétnico, multicultural, multirreligioso e multilinguístico. Sob ele viviam gregos, judeus, armênios, albanos, búlgaros, turcos, árabes, curdos, eslavos e ciganos que praticavam o cristianismo ortodoxo, o catolicismo, o judaísmo, e o islamismo (em suas várias correntes). Após décadas de derrotas militares e constantes revoltas internas, o Império dava claros sinais de fraqueza. Era chamado por muitos de “o velho doente da Europa”.

 

A colcha de retalhos étnica do Império Turco Otomano

A colcha de retalhos étnica do Império Turco Otomano

Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, em 1914, o Império Otomano se juntou às Potências Centrais (Alemanha, Império Austro Húngaro e Bulgária), o que, à época, pareceu uma boa ideia.  No decorrer da guerra, quando a maré parecia favorecer os aliados da Tríplice Aliança, planos já eram feitos para como lidar com os espólios do Império.

 

 

Judeus, árabes, palestinos … tô confuso!

Embora hoje em dia sejam vistos como opostos irreconciliáveis, judeus e palestinos têm uma origem comum.

Ambos os grupos, assim como outros, surgiram na região do Levante (mais ou menos o que consideramos Oriente Médio hoje em dia). Àquela época, não havia o conceito de Estado, como conhecemos hoje. Várias tribos coabitavam aquela região. Os judeus originaram-se de algumas dessas tribos enquanto os árabes (aos quais os palestinos pertencem), de outras.

Durante a antiguidade, os judeus formaram reinos independentes na Palestina (dentre os quais o de Israel e o de Judá). Com o tempo, foram conquistados, expulsos, voltaram, foram reconquistados, até que, no ano 70 DC, os romanos destruíram o Segundo Templo e os judeus começaram, cada vez mais, a se espalhar pelo mundo.

 

A conquista de Jerusalém pelos romanos

A conquista de Jerusalém pelos romanos

 

Em resumo: no começo havia árabes, judeus e outras tribos. Os judeus chegaram a se organizar em reinos independentes, mas com invasões estrangeiras foram perseguidos e acabaram se refugindo em vários países.

 

Aproveitando,  esclarecimentos rápidos.

Palestinos são, em sua maioria, árabes

O termo “palestino” era usado, antigamente, para simplesmente se referir a quem era de origem daquele lugar. O mesmo que dizer que fulano é paulista ou ciclano mineiro. Foi só no século XIX, com o advento dos nacionalismos, que palestino passou a identificar um povo, uma nação. Essa nação continua a ser, no entanto, em sua maioria etnicamente árabe.

 

É como dizer que a maioria dos angolanos é negra, mas são todos, incluindo os brancos nascidos lá, angolanos.

 

Iranianos, em sua maioria, NÃO são árabes

 

Embora os iranianos não entrem muito nessa história, é bom aproveitar para desfazer um desentendimento que muita gente comete. Iranianos NÃO são árabes. São, na maioria, etnicamente persas. Essa distinção é muito importante para o caso de você conhecer um iraniano e quiser manter a simpatia dele.

 

Turcos também não são árabes.

 

São turcos, parte de outro povo, sem relação com os árabes.

 

“Judeu” define um povo e os praticantes de uma religião.

É uma definição mais complexa, porque envolve os praticantes da religião e o povo etnicamente de origem judaica. Quando falamos em judeu, portanto, podemos estar nos referindo ao membro da etnia e/ou ao praticante da religião. Há pessoas que são judias, etnicamente, mas não praticam a religião. Há também judeus religiosos que pertencem a outras etnias, mas que são praticantes da religião. Há inclusive, uma comunidade considerável de judeus negros, a maioria da Etiópia.

Quando falarmos em judeu, aqui, estaremos nos referindo ao religioso e ao étnico.

 

O sionismo e a recolonização da Palestina

O sionismo é um termo geralmente usado para designar a convicção de que os judeus têm direito a um Estado próprio na Palestina. Como ANSEIO, o sionismo é um sentimento antigo, que vem desde que os judeus foram expulsos pelos romanos da região.

Como movimento organizado, o nascimento do sionismo é datado em 1897, quando aconteceu o Primeiro Congresso Sionista, na Suíça. A partir de então, a busca por um estado judaico na Palestina tornou-se um movimento político organizado e financiado por figuras importantes.

 

Muitas barbas maravilhosas se reuniram nesse dia

Muitas barbas maravilhosas se reuniram nesse dia

 

Além de atender à demanda história de retorno à Palestina, o movimento era uma reação à crescente onda de ataque aos judeus pela Europa.  Como todo povo desterrado, os judeus (assim como os ciganos, por exemplo) sempre foram considerados estrangeiros nos países em que viviam. Por isso, sempre foram perseguidos. O século XIX, contudo, foi palco de um acirramento das hostilidades, notavelmente no Império Russo, em que milhares de judeus foram exterminados em pogrons.

Judeus mortos em um pogrom no Império Russo, em 1906

Judeus mortos em um pogrom no Império Russo, em 1906

O antissemitismo, contudo, não estava restrito à Europa Oriental nem à Alemanha. Como bem demonstra Michael Marrus, em A Assustadora História do Holocausto, no início do século XX, a França, por exemplo, era muito mais hostil aos judeus que o país que futuramente promoveria seu extermínio sob o domínio nazista. Emblemático foi o Caso Dreyfus, de 1894, em que um oficial judeus do exército francês foi condenado por traição com base em documentos falsificados. A evidente fraude passou anos encoberta pelo franco sentimento antissemita que grassava o país.

 

Esses fatores causaram ondas de migração de judeus à palestina, conhecidas como aliyahs. A Primeira Aliyah, que foi de 1881 a 1903, teria levado em torno de 30 mil judeus à região, onde se assentaram em pequenas comunidades. A Segunda Aliyah, de 1904 a 1914,  levou mais outros 40 mil. Foi nessa época que os famosos kibbutzim (colônias agrícolas) foram fundados. Essa segunda onda migratória foi importante por ter sido constituída por intelectuais da Rússia e Polônia, que trouxeram consigo a revitalização do uso de hebraico na região.

 

Os kibbutz eram erguidos em terras compradas dos beduínos locais

Os kibbutzim (kibbutz, no singular) eram erguidos em terras compradas dos beduínos locais

E como estava a Palestina no início do século XX?

O mesmo caldeirão étnico de sempre.

É importante notar que cristãos, judeus e árabes SEMPRE coabitaram na região e que o Império Turco-Otomano concedia certa independência administrativa aos líderes de cada comunidade.

A proporção entre cristãos, judeus (religiosos e étnicos) e muçulmanos (em sua maioria, árabes) variou de acordo com o tempo, no entanto.

 

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Como ilustra o quadro acima (extraído daqui),  no primeiro século os judeus ainda eram a maioria na região. No ano 70, após a destruição do Templo, começam a fugir da Palestina, escapando da perseguição romana. Em consequência, os cristãos tornaram-se predominantes até a época da queda de Jerusalém  para as tropas de Saladino, em 1187.  A maioria muçulmana seria aprofundada no decorrer dos séculos, quando a região ficou sob o domínio dos Turco-Otomanos.

Como fica claro, o número de judeus começou a crescer significativamente na virada do século XIX para o século XX. Naturalmente, o afluxo repentino de uma grande quantidade de pessoas de cultura e etnia diversas dos árabes (já predominantes na região) causou conflitos e violência entre as partes. Há registro de pedidos de autoridades árabes junto aos turco-otomanos para que restringissem a imigração de judeus, o que foi ignorado.

A hostilidade, no entanto, ainda era controlada. O pior está por vir.

 

TLDR

 

 

Um resumo para os preguiçosos.

A Palestina é onde fica Israel. Desde muito tempo judeus e árabes vivem lá. Os judeus, que já foram maioria na região, espalharam-se pelo mundo fugindo, principalmente, dos romanos. Com o tempo, a violência que sofriam em outros países fez com que o movimento sionista, que proclamava o retorno à Palestina, se fortalecesse. No final do século XIX os judeus começaram a retornar à Palestina, que estava há séculos sobre domínio do Império Turco Otomano. Esse império, por sinal, estava em decadência e a Primeira Guerra Mundial decretaria seu fim.

O fim de um poder central que controlava as tensões étnicas na Palestina funcionaria como um estopim.

Como veremos na segunda parte do artigo 🙂

 

 

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