Profissão LOL – Escritor rúbeo, multifuncional e inventor da internet

Ele é escritor, músico, tradutor e, junto com Bukowski, culpado por minha mania de FALAR assim.

André Czarnobai, autor de Cavernas & Concubinas, é conhecido entre os que VAGAM pela internet há algum tempo como Cardoso (o verdadeiro) e nessa entrevista fala sobre sua estranha trajetória, a criação do mítico Cardosonline e a vida de escritor.

Fale um pouco sobre você (idade, sua trajetória de vida e profissional, etc)

Buenas, meu nome REAL é André Felipe Pontes Czarnobai e, tendo nascido em Porto Alegre/RS, no CHORINHO dos anos SETENTA – 1979 -, acabo de completar a primeira TRINCA de vida.

Ao contrário do que todo mundo gosta de dizer, eu NUNCA tive a MENOR idéia do que queria ser quando crescesse. Desde cedo minhas ASPIRAÇÕES futuras OSCILAVAM pra caralho e eu atirava pra TUDO que era lado. Já COBICEI muito seguir a PROFISSÃO de militar (sobretudo da aeronáutica), químico, skatista profissional, arquiteto, matemático e quadrinista. Cheguei mesmo a dar PASSOS (algumas vezes IMPORTANTES) na direção dessas existências, mas, por um motivo ou outro, em algum ponto do CAMINHO eu sempre DESISTI.

Acabou que saí do colégio em 96 e no ano seguinte imediatamente entrei na faculdade de (biblioteconomia e) comunicação da UFRGS, a popular FABICO. Me formei em jornalismo SEIS anos depois, sendo que o curso dura apenas QUATRO. Gosto de dizer que me atrasei nos dois últimos porque estava TRABALHANDO (o que é verdade) muito (nem tanto). Outra versão é que passei esse tempo BURILANDO minha monografia sobre Gonzojornalismo, primeiro trabalho de conclusão de curso em línguaportuguesa EXCLUSIVAMENTE sobre o gênero criado por Hunter Thompson – o que TAMBÉM é verdade.  Mas mais verdade que TUDO isso junto é que eu andava VADIANDO PRA CARALHO nessa época. Sabe como é JUVENTUDE: muita festinha, traguinho, droguinha & mulézinha. A velha e conhecida combinação MALDITA.

Ao sair da faculdade, no final de 2003, ainda não tinha a MENOR idéia do que eu queria fazer da vida, então segui trabalhando com JORNALISMO, algo que eu vinha fazendo com maior regularidade desde 2001 (depois de uma brevíssima passagem pelo ZAZ, que mais tarde viraria TERRA, entre 99 e 2000). Depois de ter trabalhado na redação online de uma revista JOVEM (chamada Eaí?) e diversas editorias de ENTRETENIMENTO (Garota Verão, Planeta Atlântida, ClicNessa) do ClicRBS, não consegui resistir muito tempo no ClicNotícias, o departamento de HARD NEWS do portal da afiliada local à Globo.

Em 2004 saí de lá e comecei a trabalhar com a agência de pesquisas de tendência Box1824, onde atuei como CONSULTOR CRIATIVO em dezenas de projetos até o começo de 2009.  Desde o final de 2009, sou colunista de literatura da rádio OiFM. No meio de tudo isso escrevo pra revistas, faço roteiros pra TV, atuo em comerciais, traduzo e sei lá mais o que.

Qualquer coisa que alguém me oferecer fazer, desde que a) pareça massa de ser feito; b) envolva pessoas legais; e c) pague BEM, tou fazendo. Se eu NÃO SOUBER fazer, é aquilo que eu digo: é fazendo que se aprende.

Não, ele não é judeu, e pode te PROVAR isso

Como você se tornou escritor profissional?

Ali pelos 17 anos, quando entrei na FABICO, eu já andava envolvido com as NARRATIVAS há algum tempo. Desde os 12 ou 13 anos vinha freqüentando oficinas de quadrinhos ministradas por caras como Guazzelli, Edgar Vasques e Moa e lendo pra caralho coisas como Piratas do Tietê, Niquel Náusea, MAD, Geraldão, Animal, Circo e PorradaSpecial!, mas também Asterix, Mortadelo & Salaminho, Brucutu, Zé Carioca, além de Groo, o Errante, as primeiras graphic novel da Marvel e umas paradas MUITO mais obscuras, tipo “Grimm Jack” e “Keubla & Kebra“.

O foda é que essa SALADA de influências (combinada aos videogames, televisão e cinema) fazia com que meus quadrinhos, pretensamente SÉRIOS, fossem encarados como obras HUMORÍSTICAS pelos meus leitores. Tomado por total ingenuidade e PUREZA, pensei que ia poder dar continuidade a esse CRAFT na faculdade, aprimorando meus talentos tanto como ARGUMENTISTA quanto como DESENHISTA nas aulas que teria. Isso, é claro, JAMAIS aconteceu. Mas aconteceu que um camarada chamado Paulo Seben, então professor SUBSTITUTO de uma cadeira básica de PORTUGUÊS I, achou que havia algum VALOR todo especial no senso de humor OBTUSO nos textos que eu escrevia pra sua aula. Lá pela terceira semana eu já tinha me convencido de que ele tinha razão. Comecei,
então, a escrever. Cada vez mais. Ficava sete, oito horas por dia escrevendo aqueles textos, me concentrando MESMO naquilo.

Um dos meus colegas era o Daniel Galera. Na época ele já tinha um site literário – um dos primeiros do país – chamado PROA DA PALAVRA. Comecei a colaborar com ele e, não muito tempo depois criamos o CardosOnline
que durou cerca de 3 anos, teve mais de 300 edições, e serviu pra juntar toda uma galera que tava produzindo coisas criativas no país naquela época, não só em TEXTO (muito embora principalmente), mas também em IMAGEM (cinema, foto, artes plásticas) e até no MEIO TERMO (teatro, música, tecnologia, games, etc.).

Fale um pouco do CardosOnline e da sua importância nesse processo

O CardosOnline (aka COL) foi um fanzine por e-mail criado por mim e pelo Daniel Galera em setembro de 1998. A primeira edição -literalmente, um E-MAIL com algo como 50kb de PURO TEXTO – foi enviada prumas 20 pessoas no dia 5 de outubro daquele ano.

Além de nós dois, ainda faziam parte da equipe original o Guilherme Pilla e o MarceloTräsel. Funcionava assim: eu escrevia um EDITORIAL e cada um dos 4 membros escreviam sobre o que queriam desde que coubesse em 8kb. Leitores podiam colaborar mandando seus textos pra mim, que além de COLunista era EDITOR, o que significava basicamente receber e ler todos os textos, DIAGRAMAR o bagulho todo em TEXTO PURO (tivemos até uma TIRA em ASCII ART) e ENVIAR para toda a lista de assinantes.

Como em 98 a INTERNET ainda era novidade, o negócio começou a se ALASTRARde uma forma INSANA. Em pouco menos de seis meses já tínhamos quase MIL endereços cadastrados para receber as DUAS edições semanais, enviadas todas terças e quintas. Em algum ponto em 99 eu e o Galera CONTRATAMOS dois dos colaboradores mais assíduos – Daniel Pellizzari e Hermano Freitas.  Mais tarde, quando sentimos vontade de uma presença feminina mais assídua, entrou a Clarah Averbuck e alguns meses depois, Guilherme Caon.

A essa altura do campeonato já tínhamos quase 3 mil assinantes de todo o país (alguns até fora dele) e (literalmente)
centenas de colaboradores. Pra promover o fanzine no mundo REAL, costumávamos convocar os leitores pra tomarem um trago quase MENSAL com os colunistas no Garagem Hermética, em festas chamadas Bailão do Velho CardosOnline – em alusão a um lugar chamado Bailão do Velho Cardoso, tradicionalíssimo CLUB onde a velharada GUASCA vai pra dançar sua VANERA descontraída, seu CHAMAMÉ pegado.

Nessas festas (que atraíam, no auge, mais de 500 pessoas numa noite) costumávamos distribuir o CardosOnPaper (COP), uma versão IMPRESSA do COL.

Funcionava bem pra caralho: no dia seguinte a um bailão sempre havia um PICO de novos assinantes. O COL encerrou oficialmente suas atividades no dia 11 de setembro de 2001 com uma brincadeira relacionada às Torres Gêmeas que rendeu MUITA dor de cabeça na época.

Foram DEZENAS DE MILHARES de páginas de muito texto ruim, mas não me arrependo de ABSOLUTAMENTE nada.

COLunistas na flor da idade

Do staff fixo do COL você foi o que manteve a atividade mais diversificada. Além de escritor é jornalista, músico, designer, tradutor. Se dedicar a tantas coisas ao mesmo tempo ajuda ou atrapalha?

Aí é que tá: eu não me DEDICO a nenhuma delas. O que APARECER e eu me sentir CAPAZ de fazer, pode ter certeza de que, se tu me convidar, eu vou lá e FAÇO.

A partir daí, só existem dois DESDOBRES possíveis: OUtu faz uma merda TÃO grande que ninguém NUNCA mais vai te chamar pra fazer aquilo de novo OU tu acaba aprendendo rápido e faz um troço TÃO aceitável que todo mundo começa a te cogitar pra fazer aquilo de novo.

Por exemplo, me convidam muito POUCO pra fotografar, fazer o layout de um site ou uma trilha sonora pra qualquer coisa. São coisas nas quais eu NÃO SOU BOM. Já fui chamado, aliás, de “o pior fotógrafo do mundo”.

Mas é aquilo: se alguém me convidar e eu achar que o convite vale a pena, eu vou lá e FAÇO. De qualquer forma, mesmo que eu me DEDICASSE, acho que jamais atrapalharia. Primeiro porque eu não tenho pretensão nenhuma em nada do que eu faço. De graça, eu só faço o que eu GOSTO. E se eu faço, é porque me DIVERTE. Quando não me diverte mais, eu PARO de fazer. Fiquei praticamente sem escrever entre 2005 e 2007. Não faço uma música nova desde 2006. Nesse meio tempo fui fazer outras coisas que me divertiam. Que SORTE FUDIDA que eu consegui também ganhar dinheiro com elas.

Sua monografia no curso de jornalismo foi sobre jornalismo gonzo. Explique brevemente do que se trata.

Gonzojornalismo é um gênero criado pelo escritor e jornalista YANKEE Hunter S. Thompson. Basicamente, envolve o relato de eventos e acontecimentos em PRIMEIRA PESSOA, a partir de uma captação absolutamente PARTICIPATIVA – postura que bate de frente com a chamada NEUTRALIDADE jornalísitca, princípio que APREGOA que o repórter não pode jamais se envolver na história que conta, sob pena de MACULAR a verdade.Eu sempre achei isso a maior imbecilidade do universo, basicamente porque é IMPOSSÍVEL ser totalmente IMPARCIAL.

Quando descobri o Gonzojornalismo, achei que fazia sentido, uma vez que o autor assume sua total PARCIALIDADE, o que não apenas o APROXIMA do leitor, mas também fornece um novo nível de informação para enriquecer a interpretação.

Você considera o jornalismo que faz um jornalismo gonzo?

Totalmente. Na verdade, a denominação “jornalismo gonzo” ou “gonzojornalismo” é extremamente VAGA e CONTROVERSA, mas basicamente há duas ESCOLAS.

Uma defende que “gonzo” é sinônimo de “primeira pessoa”, ou seja: só seria considerado GONZO um texto no qual o
repórter tenha sido um participante efetivo da ação que descreve – se alistar no exército para falar sobre soldados, participar de uma cerimônia do santo daime para escrever sobre o ritual, etc. Esta é a associação mais comum do termo, que já foi inclusive incorporado em outros campos do conhecimento – na indústria de filmes adultos existe
uma subcategoria chamada GONZO dedicada aos filmes em primeira pessoa, na qual o diretor geralmente também é o ator.

Uma OUTRA escola aponta num caminho totalmente diferente: para essa linha de pensamento, “gonzo” seria sinônimo de “único” ou “particular”. Em outras palavras, GONZO seria um jornalismo com toques extremamente PESSOAIS do
jornalista, não necessariamente na CAPTAÇÃO das informações, mas sim na sua forma de expressar. Essa definição, mais ampla, pode se aplicar até mesmo a nomes que dificilmente seriam associados ao GONZO em outra situação, como o José Simão, por exemplo. Quer dizer, ele é totalmente ÚNICO, totalmente PARTICULAR. Não existe outra pessoa escrevendo daquela forma. Entende o que eu quero dizer?  O problema é que nenhuma das duas posições é OFICIAL, especialmente porque o próprio Hunter (visto ainda por uma terceira escola como o ÚNICO GONZO JORNALISTA que existiu) tinha as DUAS características muito presentes em sua obra.

Tudo isso pra dizer que me encaixo muito mais nessa SEGUNDA opção, do cara que faz alguma coisa totalmente AUTORAL, e que não poderia ser feita – pelo menos não da mesma forma – por mais NINGUÉM.

Qual a melhor parte do seu trabalho?

Ele me permite fazer meus próprios horários, proporciona muitas viagens e me faz conhecer muita gente.

E a pior?

É totalmente imprevisível. Posso ganhar um caminhão de dinheiro em meia hora ou passar seis meses CONTANDO os centavos na hora do almoço.

Mas pelo menos me faz sentir muito VIVO.

WTF?

O que é preciso pra ser um bom escritor?

Viver bastante (ou conhecer bastante gente, no fim das contas dá no mesmo).

Como o trabalho influencia sua vida pessoal?

É o contrário: minha vida pessoal é que influencia (e muito) meu trabalho.

Quais seus planos para o futuro?

Ficar rico. O quanto antes melhor. Já imagino que MUITO PROVAVELMENTE não vai ser com alguma coisa que escrevi, mas enfim: tenho jogado todas as semanas na MEGA SENA. Uma hora vai ter que sair.

Fora isso, ando RASCUNHANDO uns projetos BÍBLICOS pro segundo semestre envolvendo TV, rádio e (principalmente) internet. Desde o final do ano passado estou negociando um novo livro, INÈDITO com uma GRANDE editora, mas por enquanto ainda estou na fase do FRACASSANDO MUITO. Tomara que mude logo.

O quão competitiva é sua área?

Essa é a vantagem de atuar em várias áreas: quando uma tá muito COMPLEXA, sempre dá pra tentar alguma coisa numa outra frente. Eu diria que todas as áreas em que atuam são MUITO competitivas – algumas mais, outras menos. Tudo depdende do quanto tu pode acrescentar de uma forma que MAIS NINGUÉM poderia. Ou, pelo menos, que MENOS GENTE poderia.

O grande segredo é ficar ligado pra aprender a identificar essas OPORTUNIDADES.

As pessoas têm uma concepção errada da sua profissão? Qual?

Sim: todo mundo acha que jornalista e escritor é TUDO RICO só porque eventualmente aparece no jornal ou na TV. A grande verdade da vida é que quem é REALMENTE RICO aparece MUITO pouco. Mas quase ninguém se liga nisso.

Pra mim parece um homem rico

Quais as principais dificuldades da carreira?

Conseguir encontrar um jeito de trabalhar MENOS pra ganhar MAIS. Em geral, trabalhar com COMUNICAÇÃO envolve LONGAS horas e cheques MAGROS, mas com um pouco de DESTREZA, elegância, habilidade, diplomacia e – principalmente – SORTE, dá pra operar uma VIRADA da GANGORRA alguma hora. É um trabalho LENTO, mas pode ser bem EFICAZ se for feito de forma FIRME.

Que conselhos você daria pra quem pensa em entrar na profissão? Pra quem já escreve, como conseguir ser publicado?

Não faça absolutamente NADA além do que você já vem fazendo. Só não PARE de fazer.

Se não pudesse ser escritor o que você seria?

Sem sombra de dúvida DANÇARINO HETEROSSEXUAL. Pra mim só perde de SKATISTA PROFISSIONAL na lista de profissões ideais.

Alguma história engraçada ou bizarra pra contar?

Sim, milhares. Boa parte delas está aqui. Outras, aqui. E diariamente em @kidids.

Aliás, bom momento pra lembrar que eu não sou o @CARDOSO DO TWITTER.

Mas essa já é uma outra história.

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