Da janela lateral do quarto de dormir eu, que já não era moleque de calças curtas, costumava espiar aquele bando de jovens tocando violão naquela esquina.

Aqueles rapazes eram parte do retrato da cena musical e cultural de Minas nos anos 60’s que teve seu reconhecimento nacional com o lançamento do LP “Clube da Esquina” em 1972.

Bituca e parte da turma em algum boteco de BH

A verdade é que o Clube da Esquina não foi um lugar ou um movimento cultural, como muitos costumam entender. Não havia clube algum a que se restringisse a entrada.

Eram amigos jogando conversa fora e compondo. Rapazes de classe média baixa que, sem grana para ir aos clubes da moda, se juntavam nas ruas do Santa Tereza e na casa dos Borges para fazer música.

 

Tudo teve início quando Bituca saiu de Três Pontas/MG e foi morar na Capital. Em Belo Horizonte conheceu a família Borges e se aproximou, especialmente de Marcio, amigo com quem dividia as noitadas e que se tornou um de seus grandes letristas. A amizade era compartilhada com os demais irmãos Borges e amigos que, mais tarde, viriam a compor as várias canções que muitos de vocês cantarolam até hoje.

Foi numa sessão do filme Jules et Jim que os amigos Bituca e Marcio Borges despertaram a vontade de fazer algo maior, dar um sentido à suas vidas.
Foram para casa de Marcio e compuseram as primeiras canções. E assim foi formado o clube da esquina, a junção de amigos que tinham como elemento centralizador a figura do rapaz Bituca, fazendo – por vezes – o papel de irmão mais velho, voz, maestro e amigo.

 

 

Alguns anos se passaram e o rapaz Bituca – agora Milton Nascimento – foi morar no Rio de Janeiro, ficando conhecido nacionalmente através da canção “Travessia”, letra do amigo Fernando Brant, que ganhou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1967.

Milton costumava retornar a Belo Horizonte para se encontrar com os amigos, compor e tomar umas no bar. Numa dessas vindas encontrou o rapaz Lô Borges, irmão mais novo dos onze filhos da Dona Maricota, que sempre havia ficado um pouco de fora dos encontros da turma devido a pouca idade.

A partir desse encontro Milton percebeu que Lô tinha crescido e que possuía um talento e gosto musical que haviam passado despercebidos.

É de Lô, Marcio Borges e Fernando Brant a canção Para Lennon e MacCartney gravada por Milton no LP de mesmo nome.

Repare no sotaque pouco amineirado do Beto Guedes

 

Milton retornou mais uma vez a BH e convocou o amigo Lô Borges para gravar um disco no Rio de Janeiro. O jovem Lô pediu dispensa do exército e a autorização dos pais, partindo para o Rio. Havia, no entanto, uma condição: A de que o amigo Beto Guedes o acompanhasse. Foi assim que a mineirada toda partiu rumo à praia para gravar o emblemático LP duplo chamado Clube da Esquina.

 

Cacau e Tonho: os meninos da capa do LP depois de 40 anos

 

Os músicos se revezavam nas gravações das faixas, cada qual tocando um instrumento diferente. O clima era de descontração e amizade, para aqueles jovens, a amizade sempre antecedia à música. O que importava era transmitir a mensagem, expor suas letras e melodias do modo mais sincero possível.

“Tínhamos um espírito gregário, que nos impulsionava a ficarmos juntos. Gostávamos de estar juntos porque gostávamos tanto da influência que uns exerciam sobre os outros quanto de exercê-las”. Marcio Borges

Inicialmente o disco não foi muito bem recebido pela crítica nacional, que parecia não ter compreendido a junção de sons e a audácia em se produzir um LP duplo.

No entanto, tão logo percebeu a boa aceitação do público, a crítica passou a tecer comentários favoráveis ao disco.

Em 1978 a turma, sempre acrescida de mais e mais gente, gravou o Clube da Esquina 2, também repleto de grandes canções.

Parte da cultura musical nacional, a citada e conhecida esquina entre as ruas Paraizópolis e Divinópolis em nada se diferencia de tantas outras esquinas de Belo Horizonte, salvo por uma plaqueta que indica ter sido ali o local do clube da esquina.

Ali passaram os jovens despretensiosos e aquele Bituca com voz da alma, mostrando a musica brasileira (e mineira) para o mundo e também para os brasileiros.

“Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem…”

Bons e Velhos Tempos: Bituca e o Clube da Esquina

Categoria: Bons e Velhos TemposDestaque
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56 comentários

  • Foda… viva a BOA música brasileira!!!

  • Excelente texto. Não conhecia essa parte da história dele.

  • Maravilhoso…

  • legal

  • Muito bom.

  • Nossa, excelente postagem, eu como mineiro que sou tive o privilégio de estar nessa esquina que exala a cultuda musical mineira.

  • O Escritor D. e o Doutor D. Sao a mesma pessoa? Oo

  • Muito bom! não conhecia

  • Excelente post.

    Clube da Esquina realmente é um marco na música brasileira, sem contar a voz genial de Milton Nascimento.

  • Fico feliz em saber que um blog como o LOLHEHEHE também é um veículo de cultura e arte .
    Então galera vamos deixar de ficar só no `FLAP` vamos tirar 5 minutinhos para ler e ouvir essas lindas canções 😉

  • Pô, muito bacana!!!

  • Tenho orgulho de ser mineiro

  • Falar do clube é apelaçao, Escritor D. !
    Nao tem como dar errado (a menos q tenha a audácia de falar minimamente mal) hahaha!
    Nunca tinha visto a foto dos meninos da capa do clube 1 atualmente… legal de mais.
    Belissima a coluna de hje. Ta faltando coisa assim no mundo, q junte com tanto bom gosto o rock, a musica brasileira, a musica da america latina num geral, o progressivo… e a simplicidade.
    E lá se vai mais um dia…

  • Genial!!!

  • Deveria ter colocado na tag – Formidavel –
    todos essas Colunas sao otimas!

  • Ótimo texto, ótima história e ótimo colunista. Como o Sicko disse no twitter, eu também me recuso à acreditar que esse texto seja de um coroa. Pra mim é um jovem muito polido e educado.

  • Excelente tema! Ótima coluna. Muito bom ler mais sobre o Clube da Esquina. Conheço o Rodrigo Borges, sobrinho do Lô, e ele também é super talentoso. Vai assinar contrato com uma gravadora agora, então fiquem de olho porque logo vocês vão ouvir falar dele.

  • Que coluna maravilhosa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! parabens.

  • nossa, que coluna perfeita!

  • Lindo! Obrigada pelo artigo!!!

  • Caramba! demais…

  • Sou de Três Pontas/MG e confesso ter gostado de ler essa matéria.
    Me encontrei uma vez com Milton Nascimento para uma entrevista em 2003 (tenho ela em VHS até hoje) e ele me contou uma história diferente sobre o nome "Clube da esquina":
    Há um clube chamado Clube Trespontano na cidade onde eu nasci e ele cresceu onde nos tempos áureos da minha cidade muitas festas e shows aconteciam. Esse clube fica na esquina da Rua Coronel Domingos Monteiro de Rezende com a Rua Barão do Rio Branco e com a Praça Cônego Vítor.
    Por algum motivo (não preciso dizer que a sociedade aristocrática trespontana da época não aceitava que negros entrassem no clube) Milton não podia entrar. Então um grupo de amigos que incluia Wagner Tiso (outro célebre músico trespontano) combinava de, enquanto um entrava no clube pegava bebidas, etc, os outros ficavam na esquina fazendo companhia ao Bituca. Como eles não apenas ficavam sentados e conversando, eles também levavam bebidas e instrumentos e faziam um show a parte fora do clube.
    Ali foram os primórdios do "Clube da Esquina" até que Bituca se mudou de Três Pontas e foi para Belo Horizonte.

    • A mais pura verdade…tanto que o Bituca nem fala que é de 3 Pontas.
      Olha ai 3 Pontas no LOL Hehehe, é muito emoção! heheheehe

      Lindo texto, parabéns Ecritor D vc está implantando cultura na mente dessa galera que só quer saber de mulheres nuas!

  • LOL tá indo rumo a um nível que eu particularmente sempre esperei! Sicko é um cara de bom gosto (de um modo geral claro) e eu meio que já esperava este tipo de material aqui no site. Nota-se pela coluna "Biblioteca da Formabilidade" e de tantas sugestões que o bastardo inglório sugere. Parabéns mais uma vez, e parabéns ao novo colunista. Maravilha de texto e de lembranças! #CoisaFinaMinhaGente

  • boa! esse disco é lindo demais

  • Porra, Sicko….
    Uma das melhores colunas dessa porra!
    Parabéns, seu viado!

  • salve salve mineirada boa de papo, de gole e de música!

  • Perfeito… O movimento deu azo a canções que serão eternas.

  • Sou fã do Milton, fã do Club, mas acima de tudo sou fã da amizade que uniu essas pessoas, amizade essa que fica ainda mais clara quando se lê o livro Os Sonhos Não Envelhecem do Marcio Borges.

  • Sempre ótimo. Parabéns.

  • De fato, o Clube marcou muito a história musical brasileira assim como ainda marca.
    Gostaria que mais músicas de qualidade como essa tocassem nas rádios por aí.

    • Se vc for de BH, é só ouvir a Guarani FM 96.5. Lá só toca esse tipo de música 🙂
      Da pra ouvir online tbm…

  • fantástico… adoro sua coluna! Recordar a boa música é sempre muito agradável.

  • materia de alto nivel para o site

  • Clube da Esquina é absolutamente essencial na discografia de qualquer ser que goste de boa música.
    Esse disco é brutalmente lindo, bem arranjado, composto e executado.
    Sem palavras para definir a contribuição para a verdadeira música brasileira.

  • muito foda

  • Ótimo texto.

  • Muito bom! Meus olhos brilharam a cada parágrafo..

    Obrigado!

  • Será que rola uma coluna sobre Casa das Máquinas??

  • Obrigado por divulgar algo tão maravilhoso! Parabéns, SICKO!!!

  • ainda acho o Sepultura (antigo) a melhor coisa musical de minas.

  • embora macule um pouco a proposta de sangue, pus, idiotices e mulheres nuas do site, a coluna é bacana.

  • Clube da Esquina é um lance muito FODA. Fico até sem palavras pra falar.

  • Sensacional!
    Como de costume, humilhando quaisquer colunas, das que eu me lembro, já postadas neste blog.
    Parabéns mesmo, vc escreve muito bem.
    E apesar de dizer ser velho, não aposente-se daqui, continue contribuindo com um pouco de conteúdo, qualidade e bom gosto Sr. Escritor D.
    = )

  • Por muito tempo pensei que fosse o bituca na capa do LP. Salve Milton.

  • É…pois então…o tempo tá passando né…E quando entrar setembro de novo a gente vai morrer de saudade antes de morrer pela idade…

  • LOL é vida, tem humor, tem nudez feminina, tem noticias e cultura "da boa", fora as bizarrices em geral, LOL é o melhor, parabéns Sicko.

  • Me emocionei agora brother. Clube da esquina é sensacional. Trabalho próximo a praça do Santa Teresa, aqui em BH e ver no LOL o que gosto tanto na música mineira e brasileira é sensacional. É como se estivesse lendo minhas manhãs e minha cultura e ver todos apreciando o mesmo.

  • Caramba vamos voltar com essa coluna!

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